sábado, 7 de junho de 2014

Rosas da Galileia



O Jardim da Estrela é, sem sombra de dúvidas, um dos elementos mais ricos do património artístico e turístico da Câmara Municipal de Lisboa. E essa riqueza advém-lhe dos seu passado, da grandeza das suas sombras...

O povoamento da zona da Estrela começou a intensificar-se a partir da construção da basílica, no ano de 1789. Assim, a zona passou a ser procurada pela burguesia que, depois do terramoto de 1755, preferiu ter as suas residências afastadas do centro da cidade. A integração dos dois grandes monumentos – o antigo convento beneditino da Estrelinha e a basílica da Estrela- a, construção do parque-jardim e a abertura de novas ruas, constituíram a face principal de urbanização do bairro.

A ideia de construção do Jardim da Estrela surgiu por volta de 1842, por iniciativa do ministério presidido por Costa Cabral .

Com a oferta de donativos por parte do Marquês de Tomar foi possível adquirir os terrenos que foram entregues à Câmara para os urbanizar, território esse que ocupava as hortas e pequenos casebres que rodeavam o convento. Todavia, devido à instabilidade política que se vivia então, somente em 1850 entrou-se na fase de planeamento, levada a cabo pelos engenheiros das obras públicas.

Projectaram o gradeamento e os portões, contando com a elaboração de importantes jardineiros especializados. Com a ajuda de um competente arquitecto paisagístico, Pedro José Pezerat ,a obra encontrava-se pronta a 3 de Abril de 1852.

Fazendo um inteligente aproveitamento dos acidentes do terreno, tornou-se possível construir uma colina artificial com vista sobre o Tejo e uma gruta subterrânea, ao mesmo tempo que todo o espaço era percorrido por alamedas sinuosas e embelezando com lagos, uma vistosa cascata, estufas, quiosques e um elegante pavilhão chinês, traçado por Pezerat, junto à muralha.

A ideia da sua construção surge também ligada às pretensões da Câmara Municipal de Lisboa, a fim de dedicar mais assistência e cuidado aos seus jardins, à arborização de avenidas e arruamentos, e à plantação do Parque Florestal de Monsanto.

Em comparação com qualquer das grandes capitais da Europa, Lisboa possuía nesta data uma área ajardinada muito reduzida, tendo apenas como núcleos importantes de arborização, o Jardim da Estrela, uma pequena parte do Parque Eduardo VII, o Campo Grande e o Parque Silva Porto. Para além disso, a Câmara preocupou-se com o arranjo dos Jardins Infantis, e face ao exemplo do Jardim da Estrela, construíram-se “balancés, escorregadios e balouços”.

De forma a criar zona de repouso, bem arborizadas e isoladas, outros dois novos jardins foram inaugurados nesta época, o Jardim de Stº António dos Capuchos e o da Rua da Imprensa Nacional. Já depois de inaugurados, o Jardim da Estrela e o do Campo Grande foram sujeitos a remodelações com o intuito de valorizar e aumentar a arborização, criando zonas de recreio e repouso, como já referimos. Houve também a necessidade de prolongar a Av. Pedro Álvares Cabral e a Rua da Estrela (ver planta) . Com o objectivo de proporcionar momentos de lazer, reconstruíram-se os jardins da Praça do Império e da Praça de D. Afonso de Albuquerque, por forma a colocar esses espaços bibliotecas móveis.

As linhas telegráficas e telefónicas, os fios eléctricos, os cabos e postes existentes em toda a cidade, constituíram obstáculos à política municipal em relação aos espaços verdes, que pretendia valorizar o arvoredo, evitando que o mesmo apresentasse o aspecto desolador frequente na época anterior.

Obrigada pelos novos perfis de algumas avenidas a tirar árvores aí existentes, a Câmara procurou fazer a sua transplantação. (ex. árvores da Av. Almirante Reis, Praça de D. Vasco da Gama).

Existia desde 1768 o Passeio Público, nascido das hortas do Conde de Castelo Melhor, mas passado um século, o velho passeio pombalino precisava de uma derivante, pois os jardins citadinos existentes eram privados e por isso dedicados às classes mais privilegiadas. A partir de 1842, começava a história do então “Passeio da Estrela” e declinava o prestígio do Passeio Público Pombalino com o seu traçado rectilíneo.

O Jardim da Estrela foi o cenário da evolução gradual dos costumes alfacinhas, das modas das mulheres e dos homens, da transformação de hábitos da nossa gente. Por volta de 1870, a vida no Passeio da Estrela era intensa, pois tornavam-se frequentes as festas de caridade promovidas por senhoras de alta sociedade com as suas quermesses e tômbolas, corridas de velocípedes, fogo de artificio e outras atracções.

No final do séc. XIX, o Passeio da Estrela deixou de ser o local preferido pela aristocracia, assumindo a partir daí e até cerca de 1952, um carácter popular. Perderam-se características de outrora e adquiriram-se novas que traçaram a esse espaço um novo perfil. Como tal, foram transferidas do jardim, estufas para outros locais.

O Jardim da Estrela era quase único pelas árvores seculares que possuía, e ainda hoje possui, como dragóneas, plátanos e álames e também pela localização de que favorece, visto estar situado num dos pontos mais altos da cidade.

Em 1871, o africanista Paiva Raposo ofereceu ao jardim um leão, o famoso Leão da Estrela que se tornou, tendo sido até morrer um atractivo desse espaço. Este jardim era frequentado pela elegância bairrista e por bandos de crianças sob vigilância das mães ou das amas.

Ao mesmo tempo que com o desenvolvimento da vegetação, se foi transformando num aprazível retiro sombreado, o Jardim da Estrela foi enriquecido com novas obras de arquitectura por ele projectadas ou transferidas de outros locais, como é exemplo o coreto. O coreto ocupa uma área de 100 m/2 e foi retirado da Av. da Liberdade para ser colocado no jardim em 1936. Em volta do coreto, onde uma banda regimentar realizava concertos todos os domingos, juntava-se uma verdadeira multidão de curiosos que davam ao jardim um certo ar festivo de arraial. Entre outras atracções do jardim, figurava a montanha russa que constituía(1870), uma novidade para o pacato meio de Lisboa.

Era, à semelhança do que ainda hoje acontece, frequentado pelas crianças, pelos velhinhos e pelos pares de namorados que desfrutavam de agradáveis momentos junto das estátuas, lagos de peixes e cisnes e à sombra das suas árvores.

Em 1931, o numero de arvores do Jardim da Estrela elevou-se a 838 com 32 espécies diferentes. Nas estufas do jardim, havia já nesta década numerosas variedades de plantas, e era neste local que era permitida a venda ao público de flores dos jardins municipais. Pela importância da floricultura, e pelo facto de constituir elemento de atracção neste jardim, desde 1852 que eram aí organizadas exposições com exemplares obtidos no estrangeiro de begónias, gloxínias, crisântemos, dálias, não só aqui como também e com grande impacto na Estufa Fria. Para além do coreto e da floricultura, o Jardim da Estrela era único pela estátuas e bustos que ainda hoje o embelezam.

O ano de 1938 representou para o jardim um ano de melhoramentos e inovações, pois beneficiou da aquisição de novos lagos, um parque infantil, bancos novos e piso novo. A Câmara Municipal de Lisboa tinha como preocupação colocar bancos novos ou remodelados jardins, procurando localizá-los nos locais de maior sossego e sombra. Ao contrário do anterior, o ano de 1941 é lembrado por este espaço pelo ciclone que destruiu cerca de 200 árvores das mais antigas. O ciclone conduziu a novos estudos e a novos projectos, dos quais o restaurante da montanha, a título de exemplo, foi fruto. Substituíram –se parte das suas numerosas áreas por grandes ruas, ajardinaram-se os espaços ganhos e plantaram-se cerca de novas 300 árvores.

Rebaptizado oficialmente, em homenagem ao poeta, Jardim Guerra Junqueiro, continua a ser para todos os alfacinhas apenas e unicamente, o Jardim da Estrela, nome que lhe advém do bairro popular onde está localizado.

Para além de elementos ornamentais ou funcionais já existentes no século passado, o Jardim da Estrela possui hoje um pátio de jogo, um restaurante com esplanada, uma casa de ferramentas, uma lápide com o nome de “Rosas da Galileia”, entre outros.

Do conjunto de elementos que embelezam o jardim, como lagos, o coreto, a vegetação, são de destacar os bustos e esculturas nesse espaço colocados. Seleccionámos de modo a demonstrar a sua importância, o busto do actor Taborda em bronze e com pedestal em pedra, a estatua Antero de Quental em pedra, a estátua é erguida ao trabalhador com as mesmas características. Também assente em pedra e ainda em bom estado, encontra-se no Jardim da Estrela uma estátua com um homem e um leão, que não é mais do que uma referencia ao Leão da Estrela e à sua origem.

Sofrendo as influencias do decorrer dos anos, as funções do jardim na qualidade de espaço público, embora aparentemente assumam o mesmo carácter, o modo como o espaço é apropriado difere relativamente ao passado.

Tal como a generalidade das ruas, das praças e todo o tipo de estruturas da cidade, também o Jardim da Estrela foi em certa medida, atingido pelos malefícios da marginalidade, aliada ao roubo e à droga. Contudo, não deixa de ser um local a que acorrem diariamente dezenas de pessoas, é um espaço propício a agradáveis momentos, apresentando por esta mesma razão, funções semelhantes ao passado.

Fonte:Pedro Bebiano Braga (GEO)

4 comentários:

  1. Belo texto, com fotos excelentes.

    Bom fim de semana.

    beijo

    http://coisasdeumavida172.blogspot.pt/

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  2. Continua a ser um belo jardim.
    Bom fim de semana Piedade.
    Beijos.

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  3. Passeei por lá algumas vezes, agora nem tanto.
    As duas fotos são muito belas e o texto muito completo com coisas que desconhecia.

    beijinho

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  4. Um pouco de história nunca faz mal a ninguém.
    Obrigado por partilhar um pouco do seu mundo conosco.
    Bjo

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Não sou fotógrafa, mas, gosto de fazer arte com a fotografia. Todas as palavras e as imagens deste blogue são de minha autoria, excepto as que estão assinaladas com os devidos créditos. Não são fotos perfeitas, nem eu quero que assim sejam, porque por vezes é na imperfeição que se encontra a beleza encoberta. Muito obrigada pela visita!